domingo, 6 de maio de 2012

Para Os Seus Olhos De Trovão II

Ele precisava  ficar de pé para começar algo, ficar tranquilo para ultrapassar suas próprias defesas.
Preferia deixar que o espaço o inventasse, e apesar da vertigem de não ter ninguém em volta de si, precisava estar perdido para poder se encontrar.
Ele era um predador no seu mundo natural.
O corpo dele queria falar, a roupa o calava. ,
Vivia com suas vergonhas de fora e se intitulava filho de Deus e do mundo.
Ele não tinha nome, no seu peito estava escrito 'Viver', e ele-sem-nome, vivia.
Tinha nas suas incertezas o prazer de não ter certeza nenhuma.
Guardava em sua vida ( que é uma mala sempre pronta ) peles e gostos de perfumes.
Tinha trapos velhos dentro do armário e quando decidiu os vestir, viu que ainda lhe cabiam perfeitamente.
Ele não usava máscaras.
Nunca se zangava, e quando quase deixava a exaltação tomar conta de si, lembrava de seu nascimento,  e da única tristeza que lhe deu alegria.
Tinha a pose de um cara valente, e  pavor do ridículo.
Ele queria ser escravo dos mais pesados pecados passionais, então andava sempre com um pé na noite e outro no chão.
As vezes era, as vezes não.
As vezes sarapintado, as vezes um coração preto e branco.
Sim esse era o seu mundo, e eram poucos e escassos os que podiam entender.
Ele, quando se sentia só, acendia um cigarro, a solidão não passava mas a fumaça o fazia companhia.  
Se entristecia sempre pelo que poderia ter sido e nunca foi, e isso doía nele como um nervo em carne morta.  
Para entender o que aquele menino já havia vivido, só calçando seus sapatos, olhando através de seus olhos e seguindo os seus caminhos.
Ele era de um mistério impossível de se descrever, pintado com cores imaginárias .
Ele era, um menino com olhos de trovão.    

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