segunda-feira, 25 de junho de 2012

Controle, Autocontrole, Descontrole

Era ela o que era, ou o que queria tornar-se ?
Não seria ela apenas uma fonte transbordante de algo mais, algo que vem do fundo, ou quem sabe de outro planeta ?
Não sabia.
Não via, não tinha cor ou perfume.
Tudo deixava e nada sentia.
As coisas das quais ela gostava, tratava com carinho, colocava em uma redoma eram lindas e puras, mas estavam distantes.
Eram  mundos, olhos e saudades.
Não gostava de exibir-se, se fechava então, em si.
Ela, cruzava as mãos sobre o próprio peito para proibir de transbordar a sua essência.
Não gostava de belezas desvendadas, abertas ao mundo.
Tudo o que era belo, ela guardava pra si, num canto qualquer.
O coração dela era, por esse motivo, indevassado.
Desculpassem os ventos calmos, mas o que a apaixonava mesmo, eram as brisas sem respeito.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Duas Vogais

Eu estando assim, meio doce, meio amarga é que sinto essa vontade grande de rasgar-me.
De entrar dentro mim mesma, como uma fera que só faz mal a si própria.
Eu sou uma fera.
Das que precisam ferir-se  para compreender algo, e mesmo em carne viva, nunca compreendem.
Eu nua, ando por uma estrada estreita que pede toda minha atenção.
Mas esse meu ser inquietante e estranho,de andar ligeiro, encontra sempre sinais equivocados que o obrigam a parar.
Sou uma falsa narcizista que não escolheu o que é, nem o que fazer com o que poderia ser, que ao ver seu próprio  reflexo  num lago, mete as mãos no bolso do casaco, respira fundo e sente frio.
 Eu, uma casa impregnada de poeira, guardo todos os meu restos em velhos caixotes amontoados pelos cantos, velhos presentes, restos de silêncio e de mar, que me separam de mim  mesma e me colocam entre aspas, me fazendo metade no agora.
Metade eu sou, metade poderia ser.
Eu, não sei se fujo de mim, ou se fujo para dentro mim, pois se aqui dentro existe luz também existe escuridão.
Só um são não entenderia a impossibilidade de viver sem se deixar perder em silêncios indomáveis e cheios de hipérboles. 
Eu, sou pesada demais para uma doçura plena, e me perco do sagrado ao me jogar nesses voos mirabolantes, então sufoco e peço abrigo.
Eu, estraçalho vidraças pedindo passagem, e vivo consumindo a mim mesma.
Eu, um vulcão tentando explodir, até não restar sinal de fogo, apenas cinzas e destroços. Eu,dona de um destino arbitrário e de uma eterna falta do que falar sinto essa vontade doida de devorar esses olhos que me causam sede, e assim poder encontrar liberdade no meu ser e deixar em paz o tempo e toda a sua voracidade.
            Eu, no escuro permaneço acesa e ganho outra dimensão.
                                                  Eu , como tudo, também passei.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Maybe


Não me invada com olhares.

Não tires de mim o direito de ter um silêncio que grita.
Escrevo agora numa folha suja, meus escritos são sujos e cheios de subjetividade.
Palavras ditas não me surte mais efeitos.
Não tire de mim o direito de possuir magoas infindas, que me abrem, me partem ao meio, me estiram em pedaços pelo chão do quarto.
Me deixe escapar, fugir de você, respirar e viver de poesia. 
Me deixe viver dos meus escritos manchados de ópio.
Por hoje, feche a porta de seu quarto pra mim, diga-me que a luz fraca apenas guarda um enorme vazio.
Faça-me rir com seus discursos banais,  faça-me implorar por perdões logo em seguida.
Talvez eu faça isso, talvez não.
Talvez outra hora.
Outra hora, talvez, eu queira invadir tua casa, tua rua e o teu corpo.
Embriagada e cega eu sinto vontade de lhe dizer coisas, nem sempre tão boas.
E o que pensaria você, ao escutar, presenciar os meus devaneios todos ? e se eu te perguntasse em qual dos dois lados você quer ficar, do meu ou do seu ?
Cala-te, e deixa que eu respondo por ti.
Fica do teu lado, esse lado marginal do amor não te serve, e esse meu amor banal tu podes encontrar um igual em cada esquina.
Eu já não gosto mais do gasto.




domingo, 6 de maio de 2012

Para Os Seus Olhos De Trovão II

Ele precisava  ficar de pé para começar algo, ficar tranquilo para ultrapassar suas próprias defesas.
Preferia deixar que o espaço o inventasse, e apesar da vertigem de não ter ninguém em volta de si, precisava estar perdido para poder se encontrar.
Ele era um predador no seu mundo natural.
O corpo dele queria falar, a roupa o calava. ,
Vivia com suas vergonhas de fora e se intitulava filho de Deus e do mundo.
Ele não tinha nome, no seu peito estava escrito 'Viver', e ele-sem-nome, vivia.
Tinha nas suas incertezas o prazer de não ter certeza nenhuma.
Guardava em sua vida ( que é uma mala sempre pronta ) peles e gostos de perfumes.
Tinha trapos velhos dentro do armário e quando decidiu os vestir, viu que ainda lhe cabiam perfeitamente.
Ele não usava máscaras.
Nunca se zangava, e quando quase deixava a exaltação tomar conta de si, lembrava de seu nascimento,  e da única tristeza que lhe deu alegria.
Tinha a pose de um cara valente, e  pavor do ridículo.
Ele queria ser escravo dos mais pesados pecados passionais, então andava sempre com um pé na noite e outro no chão.
As vezes era, as vezes não.
As vezes sarapintado, as vezes um coração preto e branco.
Sim esse era o seu mundo, e eram poucos e escassos os que podiam entender.
Ele, quando se sentia só, acendia um cigarro, a solidão não passava mas a fumaça o fazia companhia.  
Se entristecia sempre pelo que poderia ter sido e nunca foi, e isso doía nele como um nervo em carne morta.  
Para entender o que aquele menino já havia vivido, só calçando seus sapatos, olhando através de seus olhos e seguindo os seus caminhos.
Ele era de um mistério impossível de se descrever, pintado com cores imaginárias .
Ele era, um menino com olhos de trovão.    

domingo, 15 de abril de 2012

O Não Querer


Nunca chovia, água nenhuma caia naquela terra seca e a única música que se podia ouvir era o blues amargo da razão.

Ninguém passando na janela, nenhum aceno, apenas risos em rostos vazios ocultando gritos desesperançosos.

O dia caiu como um manto na minha solidão.
Pras coisas que acontecem dentro de alguém, todos os dias são dias e todas as horas são horas.
Essa regra é por demais injusta.
As coisas que acontecem dentro de alguém são como as descobertas frias que se anuciam como sombra sobre os lençóis.
O tempo de loucura sempre passa,  e é então que nos vemos livres como peixes em alto-mar, que nunca perde tempo remoendo saudades de áquarios.
Um rosto vazio que nunca antes havia estado em minha rua e que acumula caixas  velhas com coisas das quais não pode esquecer corre pelas ruas  procurando por alguém que escoste a cabeça em seu peito e sinta a (dor)mência do som da sua inocência perdida, do seu acordar para um  abismo que se abriu como uma flor vermelha em abril.
Ébria, como âmago que quer tudo e nada quer, que sente bem o incomodo da calmaria e do breve vão do infinito.
O pensamento que se apresenta em caos, as palavras que se transmutam para o silêncio, o dia que devia acordar cantando.
Um rosto vazio que não queria andar por uma estrada que se sabe onde vai dar, que queria descançar pois estava cansada  das sendas, que por vezes queria não ver quando tudo se pode enxergar.
Um rosto vazio que sempre optou pelo agridoce, quando a receita dizia sal a gosto, que nasceu pra acordar e começar a sentir o sono chegar outra vez, para administrar os vãos e o que é inútil, nasceu para entender o não entender das coisas.
O não querer ir, o não querer ficar.
O não querer ouvir, o não querer falar.
O não querer.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Escritos Vermelhos


Quero adormecer com você num furação, deitar-me com você numa tempestade,  meu anjo de guarda noturno.
Você que tudo sabe sobre proteção, que guarda os meus segredos, tem uma cópia da chave da minha mente e que me ensina a te alvitrar.
Certas vezes me desmonto, e meus  caminho apenas sabem seguir o teu carinho, deitar no teu sofá e ser presente no tempo de sonhar.
Quero rugar novas em meu riso e novas páginas em meu velho livro, quero a felicidade de te achar ao meu lado de ter o teu vermelho a colorir os dias.
Com as nossas fraquezas eu construí algo bonito e agora é só você que me proporciona essas alegrias diárias e quando sinto a grande falta, a grande urgência de te ter por perto me atingir, como criança fico mais perto da janela, olhos vidrados, esperando a hora em que você vai chegar.
Não demore não viu ? Você sabe muito bem que precisa esforçar-se e não escutar ninguém muito menos a voz ensurdecedora da razão.
Seja aqui, no mar ou em qualquer lugar estamos sempre sob o mesmo céu.
Eis que é do nosso amor que sou feita, sou isso, só posso ser isso e não me resta mais nenhuma opção além de ser.
Me pergunto o que nos trouxe até aqui . Coragem, medo, ou talvez nenhum dos dois ? Bússolas, mapas, sorte, acaso ? o que realmente faz você na minha estrada?  Não sei, sei é que eu estava dançando quando aconteceu e isso agora é festa, sei que sou um mero reflexo seu querendo ganhar vida no espelho e tornar-te nova.
E eu que achava que te conhecia, não espera não mais me conhecer depois de você, estive muito tempo vivendo comigo mesma no escuro, até você me acender as luzes, arrumar minha bagunça, e mudar meus limites.
Eu agradeço tanto você ter me virado do avesso, e manter meus passos em mudança constante, eu garanto que não preço nenhum poderia pagar a magia disso.
Acredito na fé que me permite acreditar no tempo, e na sua forma infinitiva que me permite seduzir esse teu coração que era tão gelado, plantar árvores e mudar sua cor.
O que faria você no meu lugar ? pra mim, que está sempre tarde e tudo tem que ser deixado para outro dia ?
Minhas palavras frequentemente me traem e não entendo nem mesmo o que eu quero dizer quando fico calada, mas entendo ainda assim do que sou feita.
Existe um murro de Berlin entre nós, e muitas  linhas que podem quebrar o silêncio e nos trazer alívio.
Não sei com que ponto devo acabar uma frase, por isso meu amor eterno pelos três pontinhos, tantos outros pontos podem existir depois deles. 
Então, a nossa história entrego as reticências...
(O último ponto sempre dono de todos os silêncios)

terça-feira, 13 de março de 2012

Para Os Seus Olhos De Trovão


Me dê sua mão, meu boi luzeiro me acompanhe que junto de você me sinto capaz de por fogo no mundo e andar descalça sobre as cinzas.
Teus encostos, teus cachos , teus casos me fascinam, me preenchem   e por fazer parte de você, são vivos em mim também.
Tu com esse teu nariz de palhaço eternamente pintado na cara, fazendo um carnaval festivo  nos meus olhos e depois de uns goles e uns tragos devastando minha calma. 
Prazer em sentir saudade de ti, caboclo, de teu colchão da luz pálida do quarto e da musica melancólica que se misturava no ar com as nuvens densas que surgiam do outro lado da serra desabando em água logo depois.
São poucos os que me causam esse tipo apertado de saudade, tão poucos que posso conta-los nos dedos de apenas uma mão.
Não vejo a hora de tu entrar novamente nessa cidade caboclo, com esses teus olhos lindos de trovão, não vejo a hora de poder vê-los em festa e perdida na vastidão deles, dançar.
Te chamo, porque se quiseres podes deitar e descansar em minha cama, passear nos meus jardins e mais, ser trapezista de meu circo.
Escuta o que eu te digo caboclo, guarda no bolso tuas preocupações e te veste com teus  sonhos, deixa teu coração liberto como um relâmpago a rasgar o céu de tua serra, talhada.
Chove no meio do verão e te faz diferente, seja além de caboclo, chuva, dessas de lavar terreiro.
Se tu quiser, meu nego, eu costuro a capa de teu peito e corto os garranchos de teu pé pra tu seguir que nem retirante e atravessar meio mundo, se não ele todo.
Cuido de tu com dengo e o cuidado que se precisa ser preta pra ter e dar.
Não importa se o nosso sertão virar mar ou se teu mundo se virar de ponta cabeça, eu te ajudo a concertar o caminho e te envio uma fé qualquer, que te guie direitinho. 
Sei que teu pensamento é de quem quer voar, mas te lembro  de não esquecer de deixar marcas por onde passares, de fazer um batuque, de me compor um som, pra que eu de longe possa ouvir e alegrar  a caixa do peito, vou te mandar um pedaço do nosso céu pra tu pregar na parede se um dia tu levantar voo, e se um dia acontecer de  eu bater as asas primeiro não ei de me esquecer de te mandar um pedaço do mar pra tu fazer dele uma bela recordação e nadar.
Eu quero que do outro lado do globo, tu possa ser feliz, mas que sinta saudade de mim e da noite do sertão.
Tu é de todo um mistério caboclo, violento e avoador.
Venha me ver montado num vento cercado por toda tua magia.
Sei que as palavras de quem vos fala não são de muita ordem ou de muita importância, mas é de um puro coração quente, que clama por tua presença.